Loucos, tolos e a claridade

Em alguma estação do Muni…

Sábado à noite, estação da Ocean Ave com a Miramar Ave. Um homem de pouco menos de dois metros de altura, cerca de 40 anos, embarca no Muni. Ele carrega uma mochila de trekking que parece espaçosa o suficiente para guardar tudo de que um viajante desapegado de seu destino final deve se lembrar. Em meus pensamentos de caçadora de histórias, ele está retornando de uma longa jornada pelas montanhas. O suposto andarilho olha para mim e solta um sorriso de dentes amarelos, como se reconhecesse um amigo. Sem tirar a bagagem das costas, ele senta-se ao alcance da minha curiosidade.

O peregrino começa a conversar, mas não convida nem a mim, nem aos demais passageiros a bordo para o bate-papo. Ele parece entusiasmado com o que ouve, como se um camarada contasse a façanha de ter conquistado a garota intocável da festa da noite anterior. Ele acha graça e tapa a boca para acompanhar o restante do relato – desta vez, um detalhe sórdido, precioso. A audiência do trem aguarda o que vem em seguida. E ele conclui, aumentando o tom de voz: “Não! Você só pode estar me zoando!”

O homem me convence de que não está sozinho.

Outro dia, na estação Montgomery do metrô, uma senhora de pele negra, turbante multicolorido, saia longa preta e um par de tênis alguns números maior do que o adequado para o tamanho de seus pés aproxima-se de um jovem executivo, que veste um terno escuro e óculos de armação fina. “Você tem um dólar ou quatro quartos?”, pergunta ela. O sujeito procura por trocados em seus bolsos e faz sinal de negativo. Em seguida, a mulher repete o pedido para todos que aguardam o trem e que não conseguem se livrar dela a tempo.

Provavelmente, ela não é a primeira pedinte ou pessoa com distúrbios mentais (talvez os dois perfis simultaneamente) a perturbar a concentração daqueles usuários do metrô em seus smartphones. Pelo menos, ela não é a primeira a roubar a minha. Ela não está pedindo qualquer esmola, porque dez centavos ou uma nota de dez dólares não adiantariam. A senhora tem um problema a resolver.

Enrascada maior do que essa, no entanto, aflige uma garota de cabelos estilo rastafari que, alguns dias depois, pisa no ônibus na King St. Ela entra pela porta traseira e logo corre com as mãos à boca, balança a cabeça, aparentemente negando uma má notícia da qual acaba de ter conhecimento – suponho eu, um acidente grave, um sequestro ou uma morte. “Não pode ser verdade, isso não está acontecendo”, ela demonstra sem palavras. Há apenas o choro alto, que cessa ao encontrar um assento. Ele recomeça. Ele silencia. O ciclo continua. E eu, sentada dois bancos para trás, penso se ela desmorona cada vez que a sua memória restante revela uma cena de um passado sem mérito, ou de um futuro incorrigível.

Eu poderia, agora, reportar a vasta população de São Francisco que sofre de severas doenças mentais e recusam tratamento. Algumas estatísticas confeririam a mim credibilidade. Eu poderia esclarecer os prós e contras da controversa Laura’s Law, lei do estado da Califórnia que impõe tratamento forçado a pacientes diagnosticados com doenças mentais severas. Revelar a minha opinião sobre ela poderia, com sorte, fomentar um debate construtivo.

Mas não desta vez.

Neste momento, e a cada vez que registro experiências semelhantes, eu apenas me pergunto se tais personagens que observei pelas ruas de São Francisco encontraram o seu próprio meio de sobreviver. E vejo-me aflita por entender os níveis de consciência onde essas pessoas construíram as sombras que as protegem da claridade. Às vezes, sem nunca mais regressar. Quem são elas? Loucas, insanas, doentes? Muitas vezes, sim. Mas eu considero que, talvez, uma vez ou outra, elas simplesmente vivam além das cercas que delimitam nosso conhecimento, percepção e emoção.

Talvez, o suposto andarilho ainda esteja na estrada – um território acidentado, porém, o lugar em que ele se sente bem com ele mesmo. Talvez, a velha mulher da estação Montgomery, ao acreditar com tanta convicção que precisa de um dólar ou quatro quartos, tenha criado uma verdade. A verdade dela. Droga, ela está sem trocado! E, apenas talvez, a garota de dreadlocks queira remover as lágrimas de dentro para secar a raíz do seu sofrimento.

Você ainda não enxerga lógica nesses pensamentos? De qual ponto de vista? Do seu?

De alguma forma, os “loucos” de São Francisco têm me encorajado, mais do que nunca, a perceber o quão relativo é o julgamento entre certo e errado, e que o normal é vulnerável diante da reorganização dos parâmetros.

Será que estou ficando louca?

7 razões para se morar (ou não) em Ingleside

A cartomante do bairro: apenas para casos de emergência, guardei o número de telefone

1. Em minha primeira expedição pelo novo território, confiro as facilidades essenciais que um bairro deve oferecer a seus moradores. Lá elas estão: duas farmácias, mercadinhos locais, um supermercado, uma boa padaria, um aconchegante café, uma oficina mecânica, um parque, duas lavanderias e…uma cartomante. Han?

A dois carteirões de casa, noto o cartaz na esquina (‘fortune teller’) e logo penso em Tiziano Terzani, à caça dos legítimos místicos da Ásia para escrever o genial ‘Um adivinho me disse’. Quantas vezes o jornalista deve ter duvidado do suposto sábio, distraindo-se em seus pensamentos: “será esse sujeito um impostor?”, “que ideia estúpida a minha”, “e se ele disser como eu vou morrer?”, “preciso ir ao banco antes de voltar para casa”. Só para casos de emergência, guardei o número do telefone.

2. A Ásia é aqui. Imigrantes coreanos, japoneses, filipinos e, especialmente, chineses. Ao longo da Ocean Avenue, que contorna o lado norte do bairro, eles dominam os pontos de ônibus, os caixas dos bancos e supermercados, restaurantes e o abundante mercado de salões de beleza (desconfio de que Ingleside tenha a maior concentração de manicures por metro quadrado das Américas).

Às vezes, pode ser engraçado. Eu estava no ônibus quando um casal de chineses (suponho) embarcou pela porta da frente. Os dois se desentenderam ao pagar a tarifa, provavelmente por um motivo pouco relevante, e o senhor começou a esbravejar com a pobre senhora, que revidava. Durante mais ou menos um minuto – um constrangedor minuto –, eles brigavam, gesticulavam, perdiam o equilíbrio e procuravam um assento vago. Tudo ao mesmo tempo. E depois são os italianos que carregam a fama de esquentadinhos.

3. Há poucos itens de consumo no planeta que me fazem perder o controle e me transformar em uma menina mimada de “The Gossip Girl”. Eles se resumem a três lojas dos sonhos: Sephora, Victoria’s Secret e The Whole Foods.

Senhoras e senhores, o supermercado dos supermercados: The Whole Foods. E ele encontra-se logo na próxima esquina. Nada de parque de diversões, restaurante indiano ou show de rock (a menos que seja do Bon Jovi….). Isso pode esperar. Golden Gate Bridge? Outra hora. Me tire de lá apenas quando tiver lido todos os rótulos, anúncios e preços, caminhado entre as gôndulas como quem passeia em um jardim de rosas e experimentado todas as sugestões do dia.

4. Ingleside tem a tranquilidade de um bairro residencial – bem, exceto quando os chineses surtam. Turistas geralmente não chegam até aqui, nem mesmo até a exuberante Ocean Beach (a apenas 30 minutos de transporte público), onde o mundo parece acabar no Pacífico. A costa leste é patinho feio perto de pontos turísticos como o Pier 39 ou o Fisherman’s Wharf – uma injustiça que, confesso, me agrada.

Ao mesmo tempo, deslocar-se para qualquer parte da cidade é tão fácil quanto ser enganado pelo dia ensolarado que se avista da janela – e você se arrepende de não ter vestido um casaco mais adequado para o vento que congela a ponta do seu nariz. Pontos de parada do MUNI – o fantástico sistema de ônibus e metrô de São Francisco – percorrem toda a Ocean Ave e as ruas que a atravessam. Sem falar no BART (Bay Area Rapid Transit), trem de alta velocidade utilizado para longas distâncias, que passa pela estação Balboa Park, a 10 minutos de caminhada.

5. Sem querer me perder do tema, peço licença para um tópico especial sobre os motivos para se morar na minha aconchegante casinha. Recém-reformada, a casa tem uma charmosa escada que leva até a porta, um termostato que ajusta a temperatura interna de acordo com a programação que você determina, e um forno inteligente que decide por conta própria quando precisa estar ligado ou desligado para se manter aquecido. Mas, a maior vantagem está em assistir a lua cheia pela janela da sala, enquanto tomo um vinho californiano e saboreio o jantar preparado pelo namorado (esta é exclusividade minha).

6. CVS e Walgreens: eles acreditam ser farmácia, mas na verdade não têm identidade definida. Ambos encontram-se a 10 minutos de caminhada, e funcionam mais como um daqueles mercadinhos de bairro, só que com uma relevante diferença: lá você encontra a solução para quase todas as emergências.

7. Quando menos você espera, vai ouvir o familiar português. Porque nós, brasileiros, estamos em toda parte. E, do outro lado da rua, está o restaurante Cafe D’ Melanio, mantido pela alegre Heloísa e seu marido, que comanda a cozinha. A programação inclui música latina ao vivo, e os proprietários garantem uma noite animada, com americanos branquelos que invadem a pista de dança improvisada e executam uma dança desajeitada e engraçada. Muito engraçada. Ah, a comida é uma delícia!